segunda-feira, agosto 21, 2017
sexta-feira, novembro 15, 2013
Vem aí o piso URBANO-DEPRESSIVO:
Já está na zona da Avenida de Roma, em breve estará em toda a cidade com excepção das zonas 'postalinho'. Geee, coisa mais triste e medonha. (foto: Pedro Wanzeller Rebordão, no grupo facebook da «Avenida de Roma»)
terça-feira, novembro 12, 2013
quinta-feira, novembro 07, 2013
Petição "Pela Manutenção da Calçada Portuguesa na Cidade de Lisboa!"
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À atenção do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Considerando que a Calçada Portuguesa é “ex-libris” da cidade de Lisboa, factor identitário da cidade aquém e além-fronteiras, elemento central da sua beleza e luminosidade, ambientalmente sustentável, regulando a temperatura e aumentando a permeabilidade do solo, vantagem competitiva, e, não poucas vezes, elemento valorizador do nosso espaço público;
Considerando que desde há décadas se assiste à má colocação e à pior manutenção da Calçada Portuguesa um pouco por toda a cidade, fruto de um sem-número de problemas por resolver (utilização de material de má qualidade, colocação por não calceteiros, obras constantes no subsolo, estacionamento automóvel nos passeios, etc.), que resultam em calçada esburacada, escorregadia e perigosa para o peão, sobretudo em arruamentos íngremes, contribuindo assim para uma compreensível aversão dos transeuntes à mesma;
Considerando que a Câmara Municipal de Lisboa, incompreensivelmente, tem vindo a procurar resolver este problema de forma ilógica, planeando a sua substituição por blocos de lioz e outros materiais a toda a cidade excepto à Lisboa histórica (contudo já o fez no Miradouro de Sta. Catarina e na Rua da Vitória, por ex.), e não, em vez disso, optando por corrigir as más práticas referidas no parágrafo anterior;
Os abaixo assinados SOLICITAM AO SENHOR PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA para que providencie no sentido de, doravante, a CML:
1. Combata eficazmente o estacionamento automóvel em cima dos passeios, causa de grande parte da destruição da calçada portuguesa.
2. Proíba a colocação de pedras que não de calçada portuguesa no espaço público de Lisboa, seja em obras da iniciativa da CML seja de terceiros.
3. Regulamente de forma eficaz as obras de infraestruturas (com calendarização regular de inspecções) levadas a cabo por terceiros, obrigando a que aquelas utilizem calceteiros credenciados para o efeito.
4. Dignifique a profissão de calceteiro (incentivos financeiros e outros).
5. Crie unidades de intervenção imediata de calcetamento, que monitorizem a cidade diariamente.
6. Elabore e torne público o ‘caderno de encargos’ que se pretende em termos de piso alternativo (materiais, novas abordagens, estética, etc.) nos casos e zonas em que tal se revele inócuo, a fim de se evitar um resultado como o verificado no Miradouro de Santa Catarina.
Lisboa, 7 de Novembro de 2013.
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quinta-feira, agosto 19, 2010
Tropecei de novo e na mesma pedra
De facto, chegou-se a um estado tal que mesmo eu, ferrenho adepto da calçada portuguesa como “ex-libris” desta cidade (e não só) e potenciador fundamental da luminosidade que caracteriza Lisboa, mau grado o estado por vezes deplorável do seu espaço público e das fachadas que emolduram as suas artérias; mesmo eu, dizia, hesito sobre se não será melhor correr a betuminoso cinzento tudo quanto seja passeio.
Talvez assim acabassem os buracos na calçada, os desenhos mal executados, as pedras coladas com “cuspo”, outras, tantas, tantas, colocadas como armadilhas aguçadas (um ex. já clássico é o dos passeios na Avenida de Roma, sobre a linha do comboio, rematando infeliz, para não dizer péssimo, projecto de arranjo à superfície levado a cabo pela REFER há uns anos e que, volta e meia, é responsável por quedas aparatosas de novos e velhos, magros e gordos, com consequências quiçá gravíssimas!); as pedras soltas por causa dos carros nela estacionados ou dos pilaretes arrancados; etc., etc.
Nessa altura até as famigeradas pastilhas elásticas cuspidas para a calçada deixariam de destoar pois o pavimento seria cinzento como elas. Acabariam, ou pelo menos seriam reduzidos drasticamente, os saltos altos das senhoras que diariamente são destruídos pela calçada desdentada. Também as quedas e fracturas provocadas pela calçada polida e altamente escorregadia, veriam a sua estatística cair a pique. Os deficientes motores teriam, sem sombra de dúvida, a sua vida facilitada. Enfim, seria uma Lisboa mais cinzenta mas mais amiga do peão. Talvez sim, talvez não, logo se veria. Mas se dependesse de mim haveria certamente duas coisas que não desistiria de tentar e que, caso provassem, permitiriam a reconciliação do lisboeta com a calçada portuguesa:
Primeiro, dignificar a profissão de calceteiro, pois é aí que o problema, investindo a nível do recrutamento, da formação e da carreira profissional. Segundo, fiscalizar permanentemente as empreitadas levadas a cabo pela própria CML e, sobretudo, pelas empresas que de uma forma ou outra acabam por esventrar a calçada, repondo-a de forma ignóbil, sejam aquelas que lidam com as infra-estruturas da cidade (luz, gás, água … cabos disto e daquilo), sejam as quase impensáveis como o Metropolitano de Lisboa, quando procede a “arranjos de superfície”. A calçada portuguesa merece uma segunda oportunidade, ou não?
In Jornal de Notícias (19/8/2010)
terça-feira, janeiro 16, 2007
A calçada portuguesa (cont.)
O argumento tem a sua pertinácia. É que, enquanto as veneradas pedrinhas se soltam, sujas de óleo de motor e travões, sob os nossos pés, os prédios – as nossas casinhas - esboroam-se vetustos e malqueridos. E quanto mais nós, pobres contribuintes autárquicos, tropeçamos nos passeios, mais os carros reluzentes e novinhos em folha tomam conta das nossas cabeças.
Resumindo muito: a nossa relação com as “calçadas” está toda de pernas para o ar.
Cá por mim, fazia-se já um concurso público, escolhia-se as 1000 melhores calçadas do país. Essas, deveriam ser convenientemente amadas e conservadas. Quanto às outras, seriam cobertas com alcatrão liso e antiderrapante para acabar com as manutenções milionárias e as entorses do pé esquerdo. Dir-me-ão: “Mas, e a tradição... os romanos... o património histórico...?! Seu iconoclasta!...”
Responderei: “Até meados do século XIX, não existiam em Portugal passeios públicos com ‘calçada à portuguesa’. Eram usados, em vários pátios e ruelas, seixos rolados do rio. Um ou outro palácio de Lisboa e arredores teria o centro do seu átrio atapetado com pedras facetadas, como rudimentares mosaicos decorativos. Um dia, certo governador do Castelo de São Jorge, o irrequieto e empreendedor capitão Eusébio Furtado, confrontado com o repugnante aspecto das ruelas da freguesia, decidiu inovar, disciplinar e educar: requisitou presos de delito comum e pô-los a partir pedra. Após o que (como agora também se diz), lhes ordenou que as enterrassem à maneira do macadame. Como se estava no princípio da coisa, os pavimentos ficaram muito certinhos, quase tão bons como os da “calçada à checa” que ornamentava e ornamenta as ruas da oriental Praga.
A cidade gostou do resultado, o governo de Fontes Pereira de Melo gostou da ideia de humilhar ladrões e indigentes pondo-os a trabalhar de cócoras à vista de toda a população, e o capitão Furtado foi contactado (e contratado) para navegações mais altas. Pôs os seus heróis vilões a martelar no Rossio e desenhou o passeio que focou conhecido como o ‘Mar Largo’. Depois, foi a glória do processo. Tudo o que era estrangeiro, à falta de poder dizer bem de uma cidade pobrezinha e indecisa entre ser estaleiro e ruína, aclamava a graça dos nossos ‘passeios de calçada ornamental’. De piropo em piropo, a cidade de Lisboa foi inchando de orgulho até à presente miséria. Em 1895, o executivo da Câmara determinava que ‘d’ora avante se empregue o empedrado à portuguesa nas construção e reconstrução dos passeios laterais das ruas’. A calçada universalizou-se, e nacionalizou-se, como O passeio público do império lusofónico, da Betesga ao Lobito, do Tamaris a Copacabana, e de Rio de Onor a Timor.
Quando o rectangular ‘Mar Largo’ do Rossio, viu as angulosas esquinas serem recortadas em redondo por um génio da Vereação do Trânsito com gosto por corridas de Fórmula Um, ninguém se deu conta que o destino dos passeios de “calçada à portuguesa” tinha novos traços. O que vemos hoje por aí são porventura os acordes finais do fado do empedrado”.
Respondido está. Entretanto, reconfortemo-nos. O tapete calcário continua a fazer desenhos sob os pés de quem se aventura a percorrer a ocidental urbe lusitana, assinalada por matagais de esverdeados pilaretes. Como histórias aos quadradinhos.
Lembrete: em 1849, o calcetamento do “Mar Largo” do Rossio custou à Câmara Municipal de Lisboa a soma total de 37 réis. Hoje em dia, um metro quadrado de “calçada à portuguesa” não ornamental custa 18 contos de réis (90 Euros, se não me engano) e requer labor suado e ininterrupto de um calceteiro, de um batedor de maço e de um servente, durante 4 a 6 horas. A colocação de alcatrão anti-derrapante fica por uns meros 3 contos de réis por metro quadrado e faz-se em três tempos (mais ou menos uma hora e meia, julgo). Meu rico dinheiro. Meu rico tornozelo. Minha rica trotinette.
Manuel João Ramos para a revist Linhas Cruzadas 200?
Mas...
As “calçadas” são tudo isso que ficou escrito. São também perturbador sinal de um paradoxo da vida urbana em Portugal. Porquê? Eu explico.
“Então é assim”, como agora “toda a gente” diz – para dar voz às falsas evidências:
Tratamos os passeios de “calçada à portuguesa” de forma ignominiosa. Pisamo-los, sujamo-los, cuspimo-los, atropelamo-los, desprezamo-los. Fazemos deles cinzeiro, lixeiro, e estacionamento das nossas luzidias baratas com rodas. Não os tratamos apenas como chão público que são. Tratamo-los como coisas que não são nossas, como porcarias deixadas no meio da rua pelo vizinho do terceiro direito a quem gostávamos de cuspir na cara se tivéssemos coragem para isso um dia.
E, no entanto... E, no entanto, os passeios de “calçada à portuguesa” são cálido objecto da nossa veneração discursiva. Não há urbanita nacional que não se disponha a colocar uma coroa de flores na lápide do nosso orgulho colectivo pelas “calçadas à portuguesa”. Quando falamos delas, uma lágrima de comoção rola pela nossa bochecha.
“Ah, sim!”, diria o advogado do Mafarrico, “Ele é tão original fazer passeios com pedrinhas sem graça nem colorido, todos tortos, e tão caros que devoram vorazmente os magros orçamentos camarários destinados à manutenção e renovação urbana em Portugal”.O argumento tem a sua pertinácia. É que, enquanto as veneradas pedrinhas se soltam, sujas de óleo de motor e travões, sob os nossos pés, os prédios – as nossas casinhas - esboroam-se vetustos e malqueridos. E quanto mais nós, pobres contribuintes autárquicos, tropeçamos nos passeios, mais os carros reluzentes e novinhos em folha tomam conta das nossas cabeças. Resumindo muito: a nossa relação com as “calçadas” está toda de pernas para o ar. (continua)
Artigo de Manuel João Ramos publicado na revista Linhas Cruzadas em 200?



