quinta-feira, setembro 08, 2011

Um Estudo de Caso: a Expo-98

Querem saber os motivos que nos levaram ao actual precipício? Recordando um método que me foi ensinado no curso de Sociologia, tentarei responder através de um «estudo de caso». Eis como este funciona: pega-se num acontecimento, tido como exemplar, e analisamo-lo em profundidade. A recente notícia, veiculada pela Ministra Assunção Cristas, no sentido de que o chamado Parque Expo iria ser extinto, fez-me recuar ao século passado, concretamente a 1998, quando o país andou a deitar foguetes, enquanto eu, macambúzia, desconfiava que a coisa iria terminar mal.

Passaram-se treze anos. Nunca mais pensei na parola comemoração. Desconhecia até que existia um grupo empresarial, intitulado Parque-Expo, com orçamento próprio, 170 funcionários efectivos e um presidente que, no ano passado, auferiu uma remuneração-base de 9.025 euros por mês. A sua missão era contribuir para o planeamento e regeneração urbanas. Tendo em conta o estado das nossas cidades, concluo que nada fizeram.

Lembremos os factos. A Parque-Expo nasceu em 1993 para montar a Expo-98, um «evento» que os responsáveis nos garantiram que se pagaria a si próprio. A marina – que virou pântano – o Pavilhão de Portugal – que se transformou num fantasma – e as habitações - cada vez mais juntinhas - gerariam lucros fenomenais. Tudo se faria, explicaram-nos, sem ir ao nosso bolso. Mas não foi isso que aconteceu. No dia em que me desloquei à Expo, vi uns cartazes com os seguintes dizeres: «Depois de 98, a Expo continua». Em Portugal, é perigoso criar uma instituição, visto que, uma vez formada, a sua dissolução é impossível.

Para além do objectivo circense, a Expo tinha ambições. Nos locais onde haviam existido refinarias e armazéns, no Poço do Bispo, em Braço de Prata e em Cabo Ruivo, erguer-se-ia uma Nova Cidade. O gabinete do arquitecto Vassalo Rosa desenhou os prédios, hotéis, centros comercias, hospitais e escolas, que ocupariam os 98 hectares da feira, mais os 350 destinados a ser urbanizados. Quando os gestores se aperceberam de que o défice da Exposição iria ser mais elevado do que o previsto, a tentação para se construir em altura e para os espaços-verdes ficarem subalternizados começou a fazer-se sentir. No dia em que fechou as portas, a dívida da empresa à banca era de 1,3 mil milhões de euros; hoje, o empreendimento ainda deve 185 milhões de euros. Por favor, não me venham falar do valor dos «activos». Enquanto a empresa não for ao mercado verificar se há compradores e qual o preço por que querem adquirir os ditos, o resto é conversa.

É verdade que se construíram infra-estruturas – estações de caminho de ferro, estradas e pontes – mas tudo isto poderia ter sido realizado sem fogo de artifício. A Ministra Assunção Cristas teve a coragem de pôr fim à Parque-Expo, o que não impedirá que tenhamos de pagar a feira popular que, ali para o lado de Xabregas, Cavaco Silva e Antonio Guterres montaram. Moral da história: não há feiras grátis.




Publicado no Expresso

4 comentários:

Anónimo disse...

Típico de MFM: "Desconhecia até que existia um grupo empresarial, intitulado Parque-Expo".

Anónimo disse...

http://infames-e-infomes.blogs.sapo.pt/

O Raio disse...

Esta senhora é de uma demagogia insuportável.
Referi-o num post que coloquei no meu blog:
http://cabalas.blogspot.com/2011/09/maria-filomena-monica-esta-cada-vez.html

Anónimo disse...

... de tão snob (ou cega pela demagogia barata e fácil - que atrai os descontentes e maldizentes de serviço) torna-se numa possidónia qualquer, brrr...