sábado, agosto 02, 2008

É possível tirar os carros da Baixa pombalina (Artigo de opinião)


É possível tirar os carros da Baixa pombalina (Artigo de opinião)-Público - Silvino Pompeu Santos

O trânsito automóvel deve ser tirado da Baixa de Lisboa mas não cortado. A solução está na construção de dois túneis

A Baixa pombalina é um conjunto arquitectónico de raro valor patrimonial e ex-líbris de Lisboa. Construída após a destruição da cidade pelo terramoto de 1755, foi, em meados do século XVIII, o primeiro grande exemplo da aplicação das ideias iluministas à renovação urbana.
A Baixa foi planeada para ser o centro de Lisboa, uma grande capital europeia, com as várias actividades devidamente organizadas: o poder político na Praça do Comércio e, ao lado, a Rua do Ouro, da Prata, dos Fanqueiros, dos Sapateiros, etc. E assim foi durante décadas: a Baixa era sinónimo de poder.
No princípio do século XX, com a extensão da cidade para as Avenidas Novas, a Baixa perdeu alguma da sua importância, mas, no essencial, o seu papel, manteve-se. Contudo, a abertura de grandes superfícies comerciais na periferia de Lisboa, operada nos últimos 20 anos, foi a grande machadada; o comércio (principal actividade) começou a definhar e a Baixa entrou em decadência.
Todos concordam que é preciso dinamizar a Baixa, mas falta estratégia. No fundo, é o ordenamento da própria cidade que está em causa. Repare-se que, agora, até a futura estação central de Lisboa (a estação do TGV) querem instalar na periferia de Lisboa, na Gare do Oriente. Assim, não admira que o centro de Lisboa esteja moribundo. Que diferença com o que se passa já aqui ao lado, em Madrid e Barcelona, por exemplo.
Nos últimos anos tem-se falado muito na revitalização da Baixa pombalina, tendo sido elaborados vários planos, tendo em vista, inclusivamente, a sua candidatura a Património Mundial da UNESCO. Infelizmente, até agora, esses planos deram em nada.
Um dos grandes problemas com que esses planos se debatem é a questão do trânsito, que não foi ainda resolvida. É consensual que, para a Baixa poder funcionar como uma grande área comercial ao ar livre, não deve ter trânsito automóvel. O problema é que o trânsito automóvel deve ser tirado da Baixa, mas não cortado, pois isso iria transformá-la numa ilha isolada e seria "pior a emenda que o soneto".
A questão que se põe é, portanto, conseguir tirar os carros da Baixa sem cortar o trânsito entre a Avenida da Liberdade e a frente ribeirinha, na zona da Praça do Comércio. Ora, tal é possível!
A solução consiste em substituir as duas artérias que actualmente fazem essa ligação, a Rua do Ouro (para o trânsito descendente) e a Rua da Prata (para o trânsito ascendente), por dois túneis, praticamente simétricos, a executar por baixo das colinas adjacentes à zona da Baixa (o Chiado, de um lado e o Castelo, do outro). Esses túneis serão um para cada sentido de tráfego (ver implantação anexa) e terão duas faixas cada, isto é, terão secção idêntica à das referidas artérias, mas a capacidade de escoamento será muito maior, já que não haverá cruzamentos de nível.
Uma particularidade destes túneis é que começam e terminam por baixo de edifícios existentes, permitindo recolher o tráfego e despejá-lo em artérias também existentes, sem necessidade de construir vias adicionais. O túnel descendente (que substitui a Rua do Ouro) vai ligar o topo da Rua 1º de Dezembro, junto ao Rossio, ao Largo do Corpo Santo, junto à Avenida Ribeira das Naus. O túnel ascendente (que substitui a Rua da Prata) vai ligar o Campo das Cebolas, junto à Avenida Infante D. Henrique, à Rua da Madalena, em frente à Rua Conde de Monsanto. Os túneis terão cerca de 700 metros de extensão, cada, e o custo global será da ordem de 30 milhões de euros.
Para a execução dos túneis, os edifícios existentes nas extremidades terão de ser previamente reforçados. Nos casos em que esse reforço seja problemático, os edifícios poderão ser demolidos e posteriormente reconstruídos, mantendo a traça original. Uma vez que os túneis irão ser implantados no meio de tecido urbano antigo, a sua execução terá de ser realizada com cuidado, embora não sejam de antever dificuldades de maior, já que irão atravessar apenas terrenos do Miocénico e o recobrimento tem, em geral, várias dezenas de metros
O trânsito dos eléctricos deverá manter-se, invertendo-se o sentido do tráfego na Rua Prata e na Rua dos Fanqueiros. Deverá aproveitar-se a ocasião para fazer um pequeno alargamento, para sul, ao longo da Avenida Ribeira das Naus e junto à entrada na Praça do Comércio, de modo a passar a haver três faixas em cada sentido, ao longo de toda a frente ribeirinha.
Acabaram-se as desculpas. A Baixa pombalina pode voltar a ser o centro de Lisboa. Assim haja vontade de quem tem o poder de decidir. Engenheiro civil. Membro conselheiro da Ordem dos Engenheiros

2 comentários:

Anónimo disse...

E que tal adoptarmos simplesmente os hábitos saudáveis dos países civilizados em vez de sermos individualistas e comodistas como os americanos?
Andem de bicicleta e de transportes públicos. Eu ando.
Daqui a uns anos os nossos netos vão-se rir á gargalhada com a quantidade de dinheiro que a gente gastou a esburacar a cidade para em troca apenas termos o privilégio de nos tornarmos obesos e enfiarmos pazadas de fuligem pelos pulmoes adentro.
Mas é claro que se pode perfeitamente fechar a Baixa ao transito. O Colombo tem carros por dentro? Ou é o equivalente a uma grande zona pedonal?
basta ter bons parques de estacionamento subterraneos na periferia da Baixa e meia dúzia de elevadores para a superfície, e transformamos a Baixa no Colombo.

A. Castanho disse...

Mas isto aqui é o "Canal Panda"?