segunda-feira, outubro 15, 2012

Os graffitis

Acabo de chegar de férias, um facto que me leva sempre a olhar Lisboa com uma atenção invulgar. É então que noto ter nascido numa das mais belas cidades da Europa. Por viver no centro histórico, sou, reconheço-o, uma privilegiada. É-me fácil esquecer a outra Lisboa, a dos bairros periféricos, dos quarteirões de armazéns abandonados e dos transportes públicos danificados.

Há tempos, apareceu no jornal Público um artigo, assinado por João Teixeira Lopes e José Soeiro, em que se afirmava ser intolerável a punição dos adolescentes que enchem a cidade de monstruosidades pintadas a spray na base de que o poder político era incapaz de «descortinar os significados que muitos jovens atribuem ao acto». Mais grave é a posição dos desembargadores da Relação de Lisboa que consideraram que, ao encherem de graffitis algumas carruagens estacionadas numa estação do Metropolitano de Lisboa, um bando de jovens não estaria a cometer o crime de dano qualificado, uma vez que, inseridos nos tempos e nas modas da juventude, os meninos estariam «a desenvolver uma forma de arte e expressão». Pelos vistos, os srs. juízes concordam com a afirmação do jovem muçulmano eL Seed no sentido de que os graffitis são «uma forma de deixarmos a nossa marca pelo mundo».

Claro que não é só em Lisboa que existem graffitis. Por todo o mundo, gangs tentam assim marcar o seu terreno. Referindo-me apenas a cidades que visitei recentemente, bastou-me olhar os muros das docas de Barcelona ou, em Florença, as casas que rodeiam a Praça de S. Marco, para verificar a expansão do fenómeno. Curiosamente, não é em zonas burguesas que «os revoltados» gostam de exercitar o seu talento, mas nos bairros pobres, onde mais facilmente se podem esconder.

Há algumas semanas, fui de comboio a Aveiro. Quando, no regresso, o Alfa parou em Braço de Prata – uma zona miserável – a estação estava decorada com uma série de hieróglifos gigantes, ao lado de um rosto com olhos arregalados, cabelos por pentear e a boca semi-aberta. Ora, o espaço público é de todos e o privado tem donos que não gostam de ver desfiguradas as fachadas das suas casas. Sei que este tipo de jovens retira prazer de brincar ao gato e ao rato com a Polícia, mas isto não é desculpa para que, se apanhados, as autoridades os não castiguem.

Em 1974, o chefe da Polícia de New York analisou as carreiras de um grupo de graffiteiros com 15 anos. Três anos depois, quase metade - 48% - havia sido presa por crimes a sério. A pichagem constitui, como se vê, a iniciação numa carreira criminosa. Os «artistas» que, à época, foram defendidos por Norman Mailer, são delinquentes potenciais. É verdade que os próprios estão convencidos de que as suas pinturas são formas legítimas de expressão, mas isto não significa que a sociedade tenha de aceitar tal ideia. Se têm pretensões estéticas deverão ser conduzidos para uma escola de artes, onde eventualmente aprenderão o que lhes deve ser ensinado. Não basta sentir-se revoltado para se pintar como Paula Rego.

6 comentários:

Anónimo disse...

Então mas o centro histórico de Lisboa não se encontra conspurcado de graffiti por todo o lado?

aeloy disse...

1-Há algum tempo na Av. Roma pelas 2 da manhã estava uma equipe da CML a limpar grafitos de um dos lados da rua. Do outro estava um gang de jovens a produzir novos. Bem à vista uma da outra.
2- Recentemente uns jovens finalistas do Maria Amélia interpelaram-me no Campo Pequeno, com uma máquina de filmar e umas perguntas:
-O que é que eu pensava dos grafitos e o que é que eu pensava dos "tags".
Julgo que lhes dei muita tralha para pensarem, pensar é preciso.
Sou dos que acham que de pouco serve a política só do pau se não houver cidadania em marcha, acho a posição do Bloco absurda,e a do tal juiz idiota.
A lei deve ser cumprida e desde logo as proibições em certos locais deve ser total e implementada policial e judicialmente.
Temos os locais "disponíveis" e aí deveria haver nums casos ordem (lembro-me das portas no Funchal ou de "grafitos" de arte em vários locais apropriados) e noutros a ordem da desordem, os tags são assinaturas de gangs em busca de controle de áreas, seja para o que imaginamos seja para outras coisas, e aí a não ser proibido deve ser a lógica da cenoura de formas a deixar esses espaços de respiração a uma juventude por um lado limitada e por outro em busca dos seus limites.
Bom o tema é aliciante e desde já me disponibilizo para esta discussão, e agradeço a colocação,
António Eloy
E desde já protesto contra esta idiotice de procurar saber se sou um robô, idiotice absolutamente só discernível...por esses, como aliás já se vê por alguns comentário

aeloy disse...

e, refiro-me, obviamente, a anúncio ou qualquer coisa que aparece por aqui em franciú, obviamente enviado por máquina....
AE

Anónimo disse...

E eu a pensar que GRAFFITI já era plural...

Com D. Filomena aprende-se sempre.

JPLN disse...

Ora aí é que se engana MFM.
A revolta é que justifica a grafitagem.
Que se trate da razão da revolta e os grafitos desaparecem.
Pessoalmente incomoda-me mais a publicidade na cidade de Lisboa que os grafitos.

Anónimo disse...

a mim incomoda-me mais a filomena mónica, confesso.