segunda-feira, agosto 04, 2008

Azul, procura-se

Quem anda pela cidade de olhos abertos terá começado a dar por isso há algumas semanas. Eu reparei naquela primeira porta subitamente desafiadora ao descer as escadinhas da minha rua. Do outro lado da estrada, existiu uma pastelaria decadente que ainda conheci de porta aberta, em pequena. Está fechada há muitos anos, o prédio desabitado, as paredes descascadas, a cor desaparecida, o telhado desabado. Um dia, alguém partiu o vidro da entrada e espreitando, no meio do lixo amontoado, era possível vislumbrar o rio por uma janela que um dia se abriu e nunca mais ninguém fechou - porque já não havia ninguém para o fazer. Entretanto, a porta foi entaipada. E um dia surgiu assim, sobre o cinzento, aquela porta murada pintada de azulão fortíssimo.

Nos dias que se seguiram, fui descobrindo outras portas entaipadas de outros prédios devolutos agora estridentes, naquele azulão que atrai o olhar e dá a ver o que já não víamos. Na Av. da Liberdade, onde há pouco outro prédio assim ardeu para susto de todos aqueles que ainda se lembram das chamas a passearem-se desenvoltas pelo Chiado, também surgiu mais uma porta azul. E noutras ruas e travessas da cidade antiga, esta manobra silenciosa de atenção prossegue o seu caminho. Será longo pois em Lisboa, dizem os últimos números, existem 4.600 prédios devolutos, abandonados, a desfazerem-se diante de nós. Muitos litros de tinta serão necessários.

Este azul forte e hipnótico, cor de outras paragens, cor de mar e de céu, é cor garrida de coisa viva, pulsante, atraente. E por isso tão inteligentemente eficaz. Abre uma porta fechada e convida a imaginação a entrar pelos escombros adentro, devaneando sobre outra realidade possível, a de um prédio estimado e recuperado. É um drama português: damo-nos melhor com a destruição que com a conservação, o desleixo do espaço público é-nos ligeiro, alheio e comum. Passamos por ele e encolhemos os ombros, nada disso é connosco, há-de ser tarefa de alguém que maldizemos sem lhe saber o nome, como é hábito.

Não sei quem anda a pintar as portas entaipadas dos prédios mortos de Lisboa. Mas adorava saber quem é este meu novo herói anónimo. Por uma vez, aprecio quem assim grafita a cidade. Alguém, por aí, que não encolhe os ombros, antes arregaça as mangas e pega numa trincha para iluminar a cidade moribunda. E nos diz a todos, habitantes, visitantes ou autoridades municipais, que não somos totalmente indiferentes a tanto desleixo e cinismo, a tanto esquecimento e incúria. Alguém que com um pincel político e amoroso, demonstra aos taggers idiotas e bestiais que conspurcam a cidade, que existe outra forma realmente consequente de nos apoderarmos da urbe. Como se a cidade antiga, que amamos, nos dissesse nesta língua inventada, de azul em azul, aquilo que um dia alguém escreveu no topo do elevador do Lavra e ainda lá está suplicante numa parede: "Falem-lhe de mim".


Catarina Portas

In Público

5 comentários:

A. Castanho disse...

Tão bonito...

Anónimo disse...

sim, o seu texto é bonito e emocionante

Gracinha's disse...

tenho lido várias reacções a estas portas azuis em vários blogues. muito se ajuíza acerca desta obra anónima. mais anónima ainda é a intenção real deste artista, certamente provocador, que tem posto a gente a indagar, e que trouxe a afecção do museu onde poucos vão, para a rua onde todos passam.

obrigada história partilha.

Anónimo disse...

no porto o azul é outro,

sou um azul cor mais gentil e prazenteiro, abrindo as suas portas ao mundo inteiro, com os seus crepúsculos, outonos e devaneios, na luta contínua pelas vagas incertas da mudança,

fala-nos a alma de uma cidade que dança, inscrevendo-se nos seus próprios sinais de revolta, com a voz da eterna beleza do saber-se criança, cantando-se ela sempre em sopro e sempre ela esperança.

.............

mais valerá a pena procurar-se outra coisa, sem alma e sem destino, sem ...

, apesar de tudo fica a tentativa,

não vou perder mais tempo com ...

.............

, vou trabalhar.

m disse...

As onze portas de Tebas, Catarina.