terça-feira, setembro 09, 2008

GERTRUDE, o médico e o monstro

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Gertrude em Bordéus

Poucos portugueses sabem o que é o GERTRUDE. E menos ainda sabem como funciona e para que serve.

Em breves palavras: o GERTRUDE é um sistema de controlo centralizado de gestão do trânsito, implantado na cidade de Lisboa há cerca de vinte anos. É basicamente um software que gere o sistema de semáforos do centro da cidade e gere os fluxos automóveis, através de sensores implantados no pavimento ligados a uma estação central de controlo viário. Foi concebido por uma empresa de Bordéus, e tem sido gerido em parceria pelo departamento de tráfego da CML e pela EISA-TESIS, uma firma portuguesa que detém o monopólio da semaforização de Lisboa (por sinal, a mesma que implantou o sistema de radares fixos da cidade).

O GERTRUDE tem sido criticado por contribuir para o estado geral de caos do trânsito da cidade, e para o ambiente de insegurança rodoviária que resulta de uma circulação automóvel feita em velocidade excessiva.

O que quase ninguém sabe é que: 1) o sistema é flexível, 2) o seu afinamento actual não é imputável à empresa francesa, mas resulta de directivas políticas assentes numa visão arcaica da mobilidade urbana, e 3) a empresa tem, desde há vários anos, insistido em convidar – sem qualquer sucesso até hoje - os sucessivos presidentes da CML e seus vereadores do trânsito, bem como as administrações da Carris, a visitar Bordéus, para que uns e outros possam perceber como o sistema pode funcionar com outro tipo de directivas.

Bordéus é uma cidade média francesa cujo município, como muitas outras autarquias europeias, apostou na redução drástica do acesso do automóvel privado às zonas centrais da malha urbana. Fê-lo criando parques de estacionamento na periferia, introduzindo linhas de eléctrico que, como um metro de superfície, ocupam o espaço antes cedido ao automóvel nas principais vias da cidade, e alterando o afinamento do GERTUDE de modo a dar total prioridade ao transporte colectivo (eléctrico e autocarros) e ao trânsito de peões e bicicletas, em detrimento do transporte automóvel privado.

O resultado foi o aumento exponencial da qualidade de vida na cidade, uma profunda requalificação urbanística, uma economia de transportes muito mais sustentável, e uma impressionante diminuição da poluição atmosférica e acústica.

Eu decidi fazer aquilo que nenhum vereador do trânsito da CML e nenhum administrador da Carris alguma vez fez: fui a Bordéus avaliar o sucesso do sistema.

E regressei impressionado e profundamente desanimado. É que, apesar de Bordéus partilhar com Lisboa o software GERTRUDE, o nosso problema não é de natureza técnica, mas política. Por isso, o paraíso de mobilidade urbana que é Bordéus não é transplantável para Lisboa – não porque o afinamento do GERTRUDE não possa produzir os mesmos resultados nas duas cidades, mas porque o provincianismo e falta de visão dos nossos políticos municipais irá continuar a impedir a mais que urgente modificação do sistema de gestão de trânsito cá implantado.

Ao mesmo tempo que Lisboa se endividava para construir vias rápidas e túneis que garantem a invasão diária de mais de meio milhão de veículos à cidade, Bordéus colocava linhas de eléctrico protegidas por muretes que bloqueiam quase completamente o acesso dos automóveis ao centro urbano.

Não estou certo que a recusa dos autarcas e transportadores lisboetas em aceitar o convite da empresa GERTRUDE para visitar Bordéus se deva a problemas de ordem financeira. Mas, para que esse pretexto não seja publicamente invocado, desde já me ofereço para participar na compra de um bilhete de avião Lisboa-Bordéus, à especial atenção do presidente da CML.

Manuel João Ramos

4 comentários:

Anónimo disse...

sim, por favor, tragam de volta os nossos belos electricos, que corja de energumenos é q resolveu tirá-los a todos? e já agora se conseguirem manter o look e reduzir o ruído horrível que faziam, a gente agradece ainda mais :)

Manuel João Ramos disse...

E quem se pode esquecer que foram os energúmenos condutores da área metropolitana de Lisboa que mataram a viabilidade comercial dos eléctricos, ao estacionarem sistematicamente sobre os carris durante os anos noventa?

Em Bordéus, o Tram é silencioso, rápido, e não tem linhas suspensas - o único óbice é que o carril central, por onde passa a electricidade (um sistema sofisticado, que consegue a proeza de não electrocutar ninguém) tem uma desagradável tendência para avariar.

Anónimo disse...

«E quem se pode esquecer que foram os energúmenos condutores da área metropolitana de Lisboa que mataram a viabilidade comercial dos eléctricos, ao estacionarem sistematicamente sobre os carris durante os anos noventa?»

Este blogue segue uma orientação especialmente severa para com os automobilistas e a utilização do transporte particular, em ambiente urbano. É uma posição absolutamente legítima, independentemente de com ela se concordar ou discordar (seja como princípio geral, seja na extensão que aqui habitualmente é conferida à culpa dos automobilistas no caos da cidade). Desde logo porque o blogue é uma entidade privada e só o frequenta quem tal quiser.

O segundo comentário a esta entrada, todavia, leva essa severidade a um extremo de simplismo demagógico que surpreenderá mesmo um leitor habituado ao que n' "O Carmo e a Trindade", usualmente, se escreve sobre o automóvel e o automobilista.

De acordo, o automobilista lisboeta está longe de ser um bom exemplo. É de esperar. Ele será, na sua vasta maioria, um/uma automobilista português e o povo português tem históricas e gravíssimas lacunas de formação cívica, sendo eminentemente egoísta e preocupado apenas em "desenrascar a sua vidinha". Quanto aos "outros", como muito bem sabemos, "que se amanhem!...".

Isto é assim e será assim por muito e muito tempo (e graças, em não desprezível medida, a um Estado que se dá especialmente bem com cidadãos embrutecidos e em regra plenamente satisfeitos com mau e pouco "pão" e com um "circo" básico e estupidificante).

Mas apontar o dedo aos energúmenos dos automobilistas, como OS responsáveis, neste caso e noutros, é esquecer - muito convenientemente, para quem esquece e para quem é beneficiado por esse esquecimento - coisas que, ouso pensar, até nem serão completamente irrelevantes. Coisas como (e sem ser exaustivo):

- quem permitiu, por décadas e décadas, e vai permitindo, a densíssima construção que se pratica em Lisboa (no país), servida por arruamentos de largura absolutamente ridícula e por estacionamentos - seja nos edifícios, seja na via pública -, de uma insuficiência criminosa?

- quem permitiu que essa construção fosse concretizada, década após década, sem acessos para seu serviço, minimamente proporcionais, assim transformando arruamentos de tranquilos bairros, pré-existentes e essencialmente residenciais, em saturadas vias de escoamento de tráfego de e para novas "urbanizações"?

- quem permitiu, décadas e décadas a fio, que as garagens projectadas nos novos edifícios se convertessem em tudo, menos no fim para que foram - presume-se - projectadas: em lojas, em armazéns, em serviços da Admnistração Pública?

- quem permitiu e permite, ano após ano, após ano, a eternização da absoluta selvajaria das cargas e descargas, a toda a hora e em qualquer lugar, por veículos cuja dimensão lhes deveria interditar, sem mais e salvo muito excepcionais circunstâncias, a circulação e permanência no interior da cidade (o que entronca na questão da existência dos mais variados estabelecimentos comerciais e armazéns - alguns lidando com materiais de grande dimensão e peso -, em zonas antigas e/ou residenciais da cidade)?

- quem permitiu, e sempre vai permitindo, a forma selvagem como a via pública é ocupada para estaleiro de obras, públicas ou não (para não falar na duração e repetição destas, sendo os pisos das ruas levantados uma e outra vez, para instalar as mais variadas infraestruturas)?

- quem permitiu o obsceno atraso na expansão da rede do metropolitano, levando ao inqualificável absurdo de só quando se anuncia o fecho deste, o aeroporto parecer finalmente vir a estar ligado a essa rede de transportes públicos; ou os casos das extraordinariamente tardias ligações do "metro" a estações ferroviárias como a do Cais do Sodré ou a de Sta. Apólónia?

- quem permitiu o surgimento do terrível e maligno novelo, impossível de desembaraçar, que é a "Grande Lisboa", com gigantescos dormitórios gerando fluxos a que a rede de transportes públicos não dá, nem dará, resposta capaz?

- quem permitiu o desinvestimento que, pelo menos na década de setenta e boa parte da década de oitenta, parece ter existido na rede (esta, aliás, objecto de tremenda contracção, no que aos eléctricos respeita) e frota da Carris?

- quem, em suma, permitiu que Lisboa se transformasse numa cidade incrivelmente hostil para o automóvel (onde se deve incluir, por uma questão de elementar honestidade de raciocínio, o inferno do transporte, carga e descarga de mercadorias, e não apenas o odiado "condutor particular"); e, evidentemente, numa cidade incrivelmente hostilizada e prejudicada pelo automóvel; mas uma cidade que, pura e simplesmente - e salvo a aceitação de pesadíssimas consequências económicas e sociais (e eleitorais, claro; e por isso, é de presumir, ninguém tem coragem para medidas radicais), não funciona sem o automóvel?

A resposta a tudo isso estará, é de crer, no "energúmeno automobilista". Óptimo! Encontrado um culpado poderemos todos descansar. E Lisboa ficará exactamente na mesma.

Costa

Ricardo disse...

Para quê oferecer bilhetes de avião a pessoas que não têm estofo para compreender as necessidades básicas da cidade? Por que não se candidata o senhor, que já tem o curso, à cátedra e resolve de uma vez por todas o problema maior de Lisboa? Continuo a dizer que os «Tio Tó» todos deste país, em que eu me incluo, claro, deveriam ser proibidos de passar a fronteira de Portugal... qualquer fronteira, para evitar ficarem deprimidos. Mas infelizmente já não há alfândegas. É claro que basta dar um salto a Badajoz ou a Vigo para ver como a coisa funciona bem há anos. É impossível uma pessoa perder-se no centro e nos arredores das cidades europeias, ao contrário do que sucede em Portugal - há falta de planificação, constrói-se primeiro e depois pensa-se no nome que se vai dar à rua e, quando finalmente há consenso sobre o nome, refura-se a mesma para inserir os esgotos e outras canalizações. No fim atamanca-se um pouco de alcatrão e os utentes que fiquem com as penas. De facto há algumas cidades costeiras no nosso país - Lisboa, Porto e Coimbra serão as maiores e as restantes (Faro, Portimão, Sines, Torres Vedras, Leiria, Aveiro, Viana, Braga) não passam de acumulados de ruas sem movimento por aí além mas onde, por falta de informação, é simples a gente deixar de saber onde se encontra ou nunca vir a saber onde fica o que se queria encontrar. Às vezes nem lá vamos com o GPS. Agora o Gertrude - Gertrude é nome de furacão! Está claro que ninguém em seu perfeito juízo se irá meter com os elementos da natureza.