terça-feira, setembro 16, 2008

O FIM DOS DINOSSAUROS


Manuel João Ramos*

QUE O PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA tenha sido eleito por um em cada nove lisboetas não é normal. Que o seu grupo de vereadores tenha poder de planear e gerir projectos tão estruturais como a terceira travessia do Tejo, a frente ribeirinha, urbanizações e reabilitações de vastas áreas do território da cidade é quase um golpe de estado.

É urgente que um ciclone varra a classe política instalada, que uma tempestade curte-circuite o espectro partidário, que uma onda gigante leve os maçons para França, os opus dei para Itália, o compadrio para a Sicília e as cunhas para Espanha (cuña = berma).

A população portuguesa está-se nas tintas para o socialismo, borrifa-se para a social-democracia, marimba-se para a democracia cristã, considera o comunismo uma anedota, e o bloquismo de esquerda uma espécie de loja do canhoto.

Ninguém, a não ser os clientes da partidocracia em que se tornou a cangalhada herdada da revolução de 1974, se revê sinceramente no sistema político montado, em que a ordem é produzida em Bruxelas, o sustento é assegurado por grupos financeiros e a mira da felicidade é acaparada pela peste do futebol. O resultado confrangedor deste estado de coisas da res publica lusitana é um intransponível abismo cavado entre eleitores e eleitos, que se espelha na quase total ausência de participação cívica na vida política, e no desamor colectivo pelos conceitos de comunidade e de civilidade.

Lisboa é um caso agudo desta derrocada cultural. Em grande parte tal é devido à existência de um mastodonte político-administrativo chamado CML.

A CML deveria ser, pura e simplesmente, suprimida e em seu lugar deveriam ser criadas dez câmaras que pudessem gerir eficazmente os vários núcleos urbanos que compõem a cidade. Estas câmaras, com as dos concelhos limítrofes, deveriam compor um conselho municipal com funções de gestão e planificação estratégica, que absorvessem funções da CCDR e do governo civil. A miríade de freguesias deveria ser destituída segundo o princípio de que uma junta de freguesia urbana não deveria administrar uma população menor que 5.000 e maior que 20.000 habitantes. A Assembleia Municipal deveria ser correspondentemente reformada de modo a funcionar como parlamento regional.

Seria mais lógico que os munícipes votassem em agrupamentos cívico-partidários que representassem e defendessem interesses específicos à freguesia, ao núcleo urbano, à cidade e à região.

Depois de tal terramoto, justificar-se-ia a criação de um museu dedicado à evocação da memória dos tempos jurássicos da democracia portuguesa. Seria o local indicado para contemplar as foices, martelos, setas, punhos e flores, bolas e estrelas partidárias.

* Cidadão de e por Lisboa

4 comentários:

Anónimo disse...

O sr Ramos cada vez me consegue espantar mais.

A minha pergunta singela, é :

Porque se candidatou á Camara de Lisboa?

Manuel João Ramos disse...

A pergunta é singela, de facto.

Tejo disse...

daí a resposta de meia tigela?
caro ex vereador, confesse, apetecia-lhe contemplar as foices, martelos, setas, punhos e flores, bolas e estrelas partidárias, sem pagar bilhete. Não há estudos grátis.

Anónimo disse...

Com todos os defeitos, não deixa de ter razão.
Não é crime ter a ilusão de julgar que se poderá realizar qualquer coisa a favor e em benesse dos lisboetas.
Assistimos impávidos a servirem-se de Lisboa.