sexta-feira, novembro 14, 2008

Invasão dos camaleões

Que há crise financeira, económica e social é inegável. E cultural. Assim sendo, mais do que nunca, precisamos de instituições fortes, interventores, credíveis, sobretudo as políticas, as de supervisão, as reguladoras e os tribunais. Todavia, multiplicam-se os sinais de fraqueza institucional, para já não falar de desresponsabilização e impunidade, sob as mais curiosas formas. E neste desnorte pois eis que surge uma invasão de camaleões.

Porque nos invadem agora tantos homens-camaleão? Talvez porque os camaleões sejam hábeis em trocar de cor conforme o ambiente e este está mau. É bom não esquecer que usam a língua rápida e alongada (parece que o fazem desde sempre e que até há registos fósseis de camaleões desde o Terciário). A pele dos camaleões apresenta queratina e portanto é resistente... Oh, como resistem a tudo. Aliás, os camaleões mudam de pele tal como as serpentes e também são bastante agressivos com os outros membros da sua espécie, mas é claro que a agressividade ‘humano-camaleónica’ é por vezes sofisticada e até pode parecer doce.

O encéfalo do camaleão recebe sempre duas imagens separadas que tem de associar. Elucidativo.

E, todavia, há fãs destes camaleões, que não lhes conseguem ver a crueldade ou o calculismo ou mesmo que a ética e os ideais nunca contaram para eles. Há mesmo quem tenha camaleões políticos como referências de estimação... gostos.

Não vos faz lembrar nada? No resto da natureza como na vida humana, o mundo está cheio de camaleões políticos a tentar descolorir a pele como se da matança da memória dos seus iguais pudessem ressurgir imaculados. Mas surgir imaculado é algo que só os corações simples conseguem e os camaleões estão longe disso.

Também há quem se recuse terminantemente a ser camaleão e há bastos exemplos disso. Agora que a Gebalis tem sido notícia quase diária, não posso deixar de lembrar um vereador – só – denunciando ilegalidades e a receber como resposta a exigência da sua demissão e a tentativa de enxovalho público, mesmo de quem o antecedeu e nada fez (é ver bem as actas da CML de Janeiro a Maio de 2007). Ainda bem que gosto mais de actos do que de palavras.

Voltaremos ao tempo em que as pessoas se não deixam enganar pelos camaleões e pela sua opressão mediatizada?

Valha-nos que o ‘Camaleão’ também é uma personagem de banda desenhada, o vilão que costuma bater-se com o ‘Homem-Aranha’... mas perde.


Paula Teixeira da Cruz


In Correio da Manhã

2 comentários:

Anónimo disse...

Dedicado a Santana Lopes? Se não é, podia ser.

pauloriomaior@sapo.pt disse...

Caros bloggers do "Carmo e a Trindade", pelo vosso trabalho de reflexão sobre Lisboa, e pela passagem desta data, é-vos devido uma saudação de parabéns.

Que cumpram muitos anos de vida.