terça-feira, setembro 04, 2007

Lisboetas #11

«PORTUGAL NA EUROPA

João XXI
O único Papa médico da História

Continuamos a falar da Europa, neste número de Tempo Livre, e também daqueles portugueses que, ao longo da História, souberam ganhar fama em todo o continente europeu. Depois de Damião de Góis, é tempo de recordar o Papa João XXI (1215? – 1277) — que quase só conhecemos pelas avenidas e ruas que têm o seu nome. Sabe-se, é certo, que foi um Papa português — o único até à data —, mas o seu pontificado foi tão breve (Setembro de 1276 a Maio de 1277) que pouco tempo teve para se evidenciar enquanto ocupou o trono de São Pedro.
A verdade, porém, é que ele, ao ser eleito para a chefia suprema da Igreja Católica, já era famoso em todos os meios cultos da Europa. Pedro Julião (que também usou o nome de Pedro Hispano Portugalense) destacou-se pela universalidade do seu saber: para usarmos termos modernos, foi médico, com especialização em oftalmologia; foi filósofo, com obra importante no campo da Lógica; foi psicólogo e foi — em pleno século XIII, imagine-se! - um destacado divulgador, autor de um livro de «medicina popular». Foi ainda teólogo e matemático. E em todos estes saberes ganhou enorme renome em toda a Europa. Na verdade, a importância histórica portuguesa e europeia desta figura é maior como «Pedro Julião» do que como «João XXI», dada a curta duração do seu pontificado.
Filho de um médico, também chamado Julião, nasceu em Lisboa e começou os seus estudos na escola da Sé. Mais tarde — recorde-se que ainda não havia universidade em Portugal — foi continuar os estudos em Paris. Aí terá, mais tarde, ensinado Lógica. Virou-se depois para a Medicina e julga-se que estudou esta disciplina em Montpellier e Salerno; o que é certo é que foi professor na Faculdade de Medicina de Siena, entre 1245 e 1250, ao mesmo tempo que exercia clínica. Foi, também, médico pessoal do Papa Gregório X.
Esta breve panorâmica permite avaliar a presença de Pedro Julião na Europa Ocidental, nomeadamente em Portugal, França e Itália. Acrescente-se que são inúmeros os autores da época que lhe fazem referências elogiosas — incluindo o próprio Dante, que o coloca na sua Divina Comédia.
Mas, como já foi dito, a Medicina não chegava para satisfazer este espírito universalista. Estudava também Matemática, Filosofia, Teologia. E fazia-o com um duplo objectivo: o do saber e o de poder servir o seu semelhante, ou seja: o seu estudo tinha também uma finalidade prática. Essa é, de resto, uma característica marcante de Pedro Julião.

Medicina para os pobres
Um exemplo eloquente é o livro intitulado Thesaurus pauperum («Tesouro dos Pobres»): o objectivo expresso desta obra médica é facultar aos pobres um meio de cuidar da sua própria saúde. No século XIII, os médicos não abundavam e a gente pobre dificilmente lhes tinha acesso. Pedro Julião pretendeu dar a todos a possibilidade de tratarem os seus males. O livro não pretende ser original nem fornecer tratamentos novos e revolucionários; é antes um manual essencialmente prático, reunindo os conhecimentos médicos da época, que tem como fim ser útil ao público em geral, mas sobretudo àqueles que têm menos posses. O seu êxito durou mais de dois séculos: além das primeiras cópias manuscritas, veio a ter 80 edições impressas em Latim e foi traduzido para português, espanhol, italiano, francês, inglês, alemão, catalão, dinamarquês e hebraico.
Outras obras médicas de Pedro Julião incluem um tratado sobre doenças infecciosas e outro sobre oftalmologia (o Liber de oculo, que serviu como livro de texto durante 200 anos). Mas publicou também vários títulos nos outros domínios dos seus estudos: o Scientia libri de anima é um notável compêndio de Psicologia; quanto às Summulae logicales, não sendo propriamente uma obra inovadora, destacaram-se como excelente instrumento de estudo da Lógica aristotélica. A ponto de, durante três séculos, terem sido adoptadas por várias escolas, em toda a Europa.
E é este o homem, médico, psicólogo, matemático, teólogo, preocupado com o bem-estar do seu semelhante, que todos nós conhecemos, ainda que vagamente, sob o nome de João XXI, celebrado discretamente em simpósios, congressos e obras especializadas, mas de quem o grande público tem uma ideia imprecisa ou nenhuma ideia: além das ruas e avenidas que o evocam, há ainda hotéis e residenciais com o seu nome... é pouco, para a dimensão desta figura histórica.

A carreira eclesiástica
É certo que, como ficou referido atrás, o pontificado de João XXI foi demasiado curto para marcar profundamente a História, mas também é certo que não foi um pontificado desprovido de interesse. Aliás, a carreira eclesiástica de Pedro Julião foi, toda ela, brilhante. De arcediago de Vermoim, passou a prior da Colegiada de Guimarães, em 1273. Mas logo, nesse mesmo ano, foi feito arcebispo de Braga. Não chegou a ser confirmado nesta dignidade, pois fora chamado entretanto ao II concílio ecuménico de Lião (1274), durante o qual o Papa Gregório X o fez cardeal-bispo de Tusculum.
Gregório X morreu em Janeiro de 1276 e seguiram-se dois pontificados muito efémeros: o de Inocêncio V e o de Adriano V. Em Setembro daquele mesmo ano, o trono pontifício estava novamente vago. Foi então que o conclave dos cardeais, reunido em Viterbo, elegeu o cardeal Pedro Julião, que tomou o nome de João XXI.
O novo Papa, enquanto governou a Igreja, mostrou-se um activo protector daqueles que se dedicavam às letras e tentou apaziguar os conflitos no mundo cristão. Esforçou-se por promover a paz entre a França e Castela e quis proteger os territórios cristãos da Terra Santa. Quanto ao seu país: reinava em Portugal D. Afonso III, que estava em conflito com a Santa Sé. João XXI esboçou um início de reconciliação, através de uma bula que enviou ao rei português. Mas nada mais pôde fazer: a 20 de Maio de 1277, quando visitava um aposento que mandara fazer no seu palácio de Viterbo, o tecto desabou-lhe sobre a cabeça e matou-o.
Assim desaparecia o primeiro Papa português — e também o primeiro Papa médico. Mas a sua obra como Pedro Julião sobreviveu-lhe durante séculos, na Europa.

João Aguiar»

In Tempo Livre/Ag.2007


Acresce que o túmulo de João XXI esteve completamente esquecido anos a fio na nave da igreja do palácio papal de Viterbo, até que a CML de João Soares, certamente depois de ver José Hermano Saraiva protestar na TV, conseguiu que lá fosse colocada uma placa (por sinal, achei-a um pouco pindérica) com algumas linhas em honra daquele douto lisboeta. Sempre foi qualquer coisa ...

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