quarta-feira, outubro 01, 2008

VÃO BATER A OUTRA PORTA!

Na semana que passou fui copiosamente nomeado. Não por ter editado um novo livro. Não por ter escrito um rude artigo contra alguém, ou um elogio a quem o mereceu. Apenas porque, há 11 anos, sou inquilino da Câmara Municipal de Lisboa. As "notícias" vindas a lume traem o étimo da palavra: nenhuma novidade comportam. Por três ou quatro vezes, em crónicas amenas, confessei-me arrendatário municipal, como outras dezenas, senão centenas, de pessoas. E há os ateliês dos Coruchéus; os de Belém. Cedidos, como em toda a Europa, a artistas, que não vivem propriamente na penúria. Sem esquecer o Bairro dos Jornalistas, em Alfragide, construído com grandes apoios municipais. Durante umas outras eleições municipais, um sisudo e monótono semanário quis saber do assunto. Embora preserve, com feroz esmero, a minha vida privada, esclareci a senhora que perguntava. Repetiu-se, agora, a dose. Habituei-me à manipulação (porque de manipulação se trata), tocado da leve rabugice que a reincidência me provoca e a idade justifica. O que se publicou está eivado de inexactidões, de omissões e de insídia. Este jornalismo húmido e pegajoso mais parece um livro de encargos sujos do que a função de origem. Um só facto: o meu senhorio é, realmente, o Município. De resto, nada de ilegal, nada de imoral. E muito menos a retribuição de "pequenos favores". Há homens que arrastam consigo a polémica ou a ignomínia. Pertenço ao primeiro grupo. E de ignomínias possuo uma lista cada vez mais acrescida. Como o registo das coisas acompanha sempre o sentido das intenções - sei muito bem de onde e de quem partem estas periódicas atoardas. Ser livre é muito difícil.

O apartamento foi-me atribuído após inspecção dos técnicos à minha casa, em Alfama, onde vivi 32 anos. Chovia no interior, paredes rachadas, perigos vários. Procederam, outros técnicos, ao varejo cuidadoso dos meus réditos de então. Escassos: eu estava desempregado. Abandonara o jornalismo, ou o jornalismo abandonara-me em 1990. O contrato assinalava que a renda aumentaria consoante os ritmos da inflação. Devo dizer que faço estas confidências com pudor e escrúpulo. Porém, torna-se imperioso que não deixe aos acasos das contingências as evidências da razão. Conheço os perigos que a minha actividade comporta. Tenho sido, certamente, injusto, áspero e, até, insensato. Mas escrever ou ter comportamentos moralmente reprováveis - conscientemente, creio que nunca. No extremo cume da extrema percepção, é-me difícil exprimir, por outro meio que não este, a indignação causada pela abjecta orientação ad hominem da atoarda. Faço uma representação do mundo que, naturalmente, me é muito própria. E não abdico de convicções. Há quem altere o prisma, para adoptar novos modos de vida. Como não pertenço a esse agrupamento, recomendo: Vão bater a outra porta! É tudo.



Baptista-Bastos


In Diário de Notícias

9 comentários:

Anónimo disse...

Acho muito bem que o município proporcione um abrigo aos sem-abrigo.

Discomplex disse...

Eu também estou desempregado e a economi não me favorece nestes dias... será posso ficar com a sua casa agora que aparentemente as suas condições melhoraram?

MP disse...

Olha a dor de ... cotovelo. Se a inveja fosse música ...

Já agora, porque é que não se dá ao trabalho de ir à CML pedir uma?

Descobridor de Diferenças disse...

Pois, uns têm inveja. Outros, como o sr BB, têm princípios...

MP disse...

Em vez de ser invejoso, vá é à CML.

Princípios?! Fala em princípios dos demais?!
Trate de começar por analisar os seus.
Baptista Bastos não faltou a princípios nenhuns, nem tão pouco cometeu qualquer crime!!

As pessoas encontram-se num crescendo de paranóia em relação a tudo isto!
Ao invés de mudarem o estado das coisas, exigindo que a CML coloque no mercado o imenso património habitacional que detém, para que qualquer pessoa interessada possa usufruir de arrendamento, ou aquisição, põem-se aos gritos para com outrém que conseguiu obter uma habitação!!

Vilipendiam, falam em falta de princípios, etc, etc

OH PÁ ACORDEM

13:23 disse...

Não se pode dizer, com toda a sinceridade, que o sr. BB é uma pessoa de princípios que acham logo que é a brincar/provocar/sei lá o que mais...

Porque será?

MP disse...

Já só faltava "puxar ao sentimento"!!

Cara pessoa,

Claro que pode "com toda a sinceridade, que o sr. BB é uma pessoa de princípios", e até mesmo que o Sr. BB é uma pessoa sem princípios, "e sei lá o que mais ...", tem o direito de o fazer, mas também tem a responsabilidade que a condição humana lhe dá de ponderar, ou não?
Será que é "tudo ao molho, e fé em Deus?"

Aqui não há qualquer subentendido no seu "Porque será?", se a questão se passa-se consigo, seja lá 'você' quem for, pensaria exactamente o mesmo.
Como pensaria o mesmo se fosse a senhora das flores, ou até Santana Lopes (!! 'arreda'!).

Volto a frisar o mesmo, a CML tem que disponibilizar o património imobiliário do município a particulares singulares que queiram arrendar ou adquirir - resolvem-se vários problemas de uma assentada só:

- os valores do imobiliário descem;
- Lisboa volta a ser povoada;
- etc, etc, etc

Não se sinta tão amargo/a e ao invés de estar para aí a barafustar para o ar, faça algo de concreto para a CML agir no âmbito do interesse do município:

DISPONIZEM O IMOBILIÁRIO

Campanha Já!!

14:39 disse...

"se a questão se passa-se consigo" ...

Se a situação se PASSASSE comigo, não se passava, porque tenho vergonha na cara.

E também nunca disse que o melhor amigo do homem é o whisky, nem ando para aí todo pipi à pala de ter uma casinha da cmL.

16:04 disse...

Perdão, nunca ACHEI que o whisky fosse o melhor amigo do homem (quem disse aquilo foi Millôr Fernandesm, se não estou em erro).

BB apenas pratica.