segunda-feira, julho 21, 2008

O PÚBLICO percorreu o centro da cidade com o arquitecto Manuel Graça Dias

PUBLICO-Câmara "parece estar no bom caminho", mas já podia ter feito algo pelos transportes-21.07.2008, Ana Henriques
O PÚBLICO percorreu o centro da cidade com o arquitecto Manuel Graça Dias, apoiante de António Costa na campanha eleitoral, para fazer o balanço de um ano de mandato autárquico

(...) Não é a indigência que faz mossa ao arquitecto Manuel Graça Dias, enquanto observa a figura da mulher a circular pela rua pedonal: "Não acho graça a estas mariquices para turistas." O que o irrita é o cenário de uma Baixa morta aos fins-de-semana - "Em Milão há magotes de gente às compras ao sábado à tarde", atira - e um Terreiro do Paço que a autarquia tenta animar com actividades "mixurucas", à mistura com esplanadas precárias, quiosques e roulotes de farturas. "Depois contrataram um monos da Escola de Circo. Quem quer ver palhaços vai ao Coliseu."
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Apoiante de António Costa para a presidência da câmara, Graça Dias faz um balanço positivo deste primeiro ano de mandato -- mas deixa críticas à actuação do executivo. "Não tem interesse nenhum tirar o trânsito do Terreiro do Paço aos fins-de-semana", observa, qualificando a concretização desta promessa eleitoral como "patética". Animação de jeito nas arcadas sim; mas reservando a placa central para grandes acontecimentos espontâneos, como as ligadas ao futebol ou a manifestação de polícias contra polícias de 1989.
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O arquitecto sabe que muita da revitalização do centro da cidade passa por quebrar a teimosia dos comerciantes, mas pensa que à autarquia cabe um papel: "Tem de haver maneira de envolver esta gente, nem que seja com vantagens fiscais para praticarem horários alargados." A seguir aponta para o lado, para o Martinho da Arcada: "É um restaurante bestial, mas uns amigos meus chegaram cá às 22h e já não lhes deram jantar." Por trás, até à Praça da Figueira, desenvolvem-se quarteirões de prédios pardacentos e esvaziados de habitantes. "Se não houver estacionamento, quem é que vem para aqui morar?" Os obstáculos que o seu colega de profissão Manuel Salgado, vereador do Urbanismo, parece estar a ultrapassar para facilitar obras destinadas a tornar mais habitáveis os edifícios da Baixa - como a introdução de elevadores, essencial para incentivar o povoamento desta zona - merecem a sua admiração.
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De resto, o alívio da carga burocrática associada aos licenciamentos parece estar a fazer-se sentir no resto de Lisboa: "Já o senti e colegas meus também." Podem ser boas notícias para os arquitectos de renome com trabalhos à espera de aprovação. "[Até porque] não temos assim tanta qualidade arquitectónica em Lisboa para desprezarmos Renzo Piano, Norman Foster ou Jean Nouvel."
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Para estancar a desertificação da Baixa, a redução do IMI e a eliminação das taxas que incidem sobre as obras de reabilitação são instrumentos para salvaguardar a diversidade social, evitando que esta zona da cidade se transforme num ghetto de ricos. A promoção de habitação a custos controlados no centro, para gente de todas as idades, deveria, por outro lado, ser o principal objectivo da Empresa Pública de Urbanização de Lisboa, defende o arquitecto.
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Acabar com a praga
"São muitos problemas para resolver num ano. Há alguns indícios de que a Câmara de Lisboa está no bom caminho, Não há certeza absoluta", analisa, enquanto passa por carros estacionados em segunda fila e no passeio. Acabar com esta praga fazia parte das medidas que Costa tinha garantido levar por diante. Foi uma promessa "um pouco demagógica" - impossível de cumprir sem ser através de um policiamento avassalador. "Ainda não há uma oferta de transporte público que pela sua qualidade, preço e conforto desencoraje o uso do automóvel", refere. A mobilidade é das áreas em que o executivo menos pontuou: "Ainda não vi nada. É fundamental dar um murro na mesa e conseguir-se entrar em negociações com os operadores." E se algumas promessas foram tolhidas pelo facto de o Tribunal de Contas ter chumbado o empréstimo para saldar dívidas a fornecedores, este não será o caso. A nível cultural, entregar a Casa dos Bicos à Fundação Saramago foi uma decisão "feliz", mas o mesmo não se passou com a arte pública com letras e números gigantes que invadiu a cidade, mostra que custou ao município 290 mil euros: "Foi como comprar uma enciclopédia inútil a um vendedor porta a porta."
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Que nota merece então este executivo, de zero a 20? O arquitecto opta pelo B, numa escala de A a D. A meio do mandato é cedo para fazer juízos definitivos... Acima de tudo, a vida na cidade só melhorará com medidas de fundo, defende. E essas não se põem em prática do pé para a mão. "Prometer que as passadeiras defronte das escolas vão ser pintadas? Faz parte das atribuições da câmara!"

5 comentários:

Tiago Moreira Ramalho disse...

deixem-me que vos faça uma sugestão: alterem um pouco o layout, pelo menos na parte dos textos, porque o texto está tão concentrado que é quase impenetrável.

Anónimo disse...

Pena que este passeio tenha sido feito com óculos de sol tão opacos.
Porque não uma vista de olhos no Lisboa S.O.S......em vez "do Martinho não servir refeições depois das 22 horas". Sinceramente....bla, bla, bla !
Lisboa está em queda livre....AGORA !

JA

Anónimo disse...

Texto roubado no Lisboa S.O.S.

"O arquitecto Manuel Graça Dias desvaloriza o problema, que entende ser 'muito pequeno-burguês, de dona de casa, superficial'. 'Podemos ter uma cidade com imensa qualidade, apesar de as ruas estarem um pouco sujas e sarapintadas com graffiti', contrapõe. 'As pessoas que nunca foram à Índia e a África não sabem o que é uma cidade verdadeiramente suja. O que aqui vemos é uma cidade moderadamente suja.'"

In Público, 21/07/08

Será que este sr. tomou uns copitos a mais no Martinho.....ou perdeu boa ocasião para estar calado?

JA

A. Castanho disse...

Valha-nos S. Cristóvão...


Atente-se nesta frase:


"Ainda não há uma oferta de transporte público que, pela sua qualidade, preço e conforto, desencoraje o uso do automóvel".


Repito: QUALIDADE, PREÇO e CONFORTO!


São estas sempre as únicas ideias que brotam destas cabeças ignorantes sobre transportes, sobretudo quando essas cabecitas encimam pessoas que não andam de transportes públicos desde os tempos do Liceu!


QUALIDADE, PREÇO E CONFORTO nos transportes em Lisboa são apanágio do TRANSPORTE INDIVIDUAL!


Quem realmente conhece o que é andar de Transporte Colectivo, especialmente de autocarro (vá lá, valha-nos o Metro...), sabe que a ambição dos seus utentes é radicalmente diversa e centra-se, muito modestamente, em três aspectos fundamentais: FIABILIDADE, horário de funcionamento e segurança!


Aspectos básicos que, infelizmente, NÃO ESTÃO GARANTIDOS AINDA pela Carris e que, a serem assegurados, poderão fazer muito pelo aumento das viagens em autocarro na Cidade de Lisboa!


Isto de pensar que um dia será possível ter autocarros que compitam com o pó-pó e que levem as Famílias da classe média alta a prescindir dele é um objectivo utópico e irrealista.


Tomáramos nós que o serviço de autocarros conseguisse captar todos os seus potenciais utilizadores, que são as pessoas de classes menos favorecidas, que hoje NÃO USAM OS TRANSPORTES e são forçadas a ter de suportar os custos do automóvel particular por não verem garantidos os tais objectivos básicos, quanto mais as fantasias dos senhores arquitectos...


Mas há mais. A seguir...

A. Castanho disse...

Outra tolice recorrente neste tipo de "artistas":


«É fundamental [a C. M. L.] dar um murro na mesa e conseguir-se entrar em negociações com os operadores [de Transportes Colectivos]».



É triste o nosso discursinho "bem-pensante" e que passa o crivo (ignorantíssimo) dos meios de comunicação continuar a repisar inutilmente esta tecla do "murro na mesa". É suposto resolver as coisas ao murro? É a dar murros na mesa que se pretende dar início a um diálogo sério entre os operadores de Transportes Colectivos da Cidade e as "autoridades" municipais?


Não estarão os senhores jornalistas "carecas" de saber - e o senhor Arquitecto também, não? - que a C. M. L. não põe nem dispõe sobre o sistema de Transportes em Lisboa?


Primeiro porque NÃO TEM COMPETÊNCIA LEGAL para tal e segundo porque não dá um cêntimo para cobrir o respectivo défice de exploração?


Nunca estes senhores terão ouvido falar numa pomposa «Autoridade Metropolitana de Transportes de Lisboa», criada nos tempos do Governo de Durão Barroso/Carmona Rodrigues, "instalada" por um Comissão Instaladora presidida pela Dr.ª Marina Fereira e, até à data, ABSOLUTAMENTE VIRTUAL, porque o seu proposto "modelo de funcionamento" ainda não obteve um mínimo de consenso por parte das Câmaras da A. M. L., ou seja, "o que nasce torto,tarde ou nunca se endireita"?


Qual é a função do "jornalismo de referência", desinformar o pýublico, dando acrìticamente voz a voz a quem não parece ter competência para falar sobre matérias que excedem, em muito, o que se aprende nas academias de arquitectura em Portugal?


Ant.º das Neves Castanho,
lisboeta e Urbanista
(com 20 anos de PRÁTICA).